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Acompanhamento da Safra de Soja 2014/15

A safra de soja 2014/15 está na reta final, restando apenas 5% da área a ser colhida. Em grande parte dos estados a colheita está finalizada; em outros estados ainda há um longo caminho pela frente, como na Bahia, onde ainda restam 40% da área a ser colhida, e o Piauí, que colheu apenas 45% da área de soja. Ao que tudo indica, teremos novamente uma safra recorde, que deve se aproximar de 94 milhões de toneladas de soja, aumento de 9% com relação à Safra 2013/14.

As regiões Centro-Sul e Nordeste sofreram com uma estiagem que perdurou entre final de dezembro e meados de janeiro, prejudicando lavouras de soja e milho em diversos estados. As regiões mais afetadas foram o Sul de Goiás, Leste Goiano, Triângulo Mineiro, Noroeste de Minas, Piauí e Oeste da Bahia, como demonstra a Figura 1 abaixo:

Figura 1 - Performance Produtiva da Soja na Safra 2014/15

Fonte: Agrometrika (www.agrometrika.com.br)


Em Mato Grosso, a colheita de soja foi finalizada e a produtividade média foi semelhante à da safra anterior, entre 52 e 53 sacas/ha. A região Oeste sofreu com a falta de chuvas no início do plantio, o que prejudicou muito a produtividade das áreas semeadas ainda em setembro. Na região Médio-norte houveram relatos de problemas com excesso de chuva na colheita, elevando a quantidade de grãos ardidos e diminuindo a remuneração do produtor. Ainda no Médio-norte, foi observado um aumento na incidência da mosca branca nessa safra, sobretudo nas lavouras mais tardias. No geral, foi mais uma safra com boa produtividade com problemas pontuais em algumas localidades.

Em Goiás e Minas Gerais, a estiagem em janeiro e o forte calor levaram a uma quebra de safra entre 15 e 20%. As variedades precoces foram as mais afetadas pela seca. As lavouras de ciclo médio e tardia sofreram alguma perda, mas conseguiram se recuperar bem com as chuvas em fevereiro e março. Entretanto, o excesso de chuvas em março vem atrapalhando a colheita e prejudicando a qualidade do grão, principalmente no entorno de Patrocínio/MG. Há relatos de grandes descontos das tradings sobre os preços pagos aos produtores, em função da alta umidade e fermentação do grão. As médias de produtividade nessas regiões devem ficar próximas a 45 sacas/ha.

No oeste da Bahia, observam-se situações contrastantes em propriedades relativamente próximas. A estiagem de janeiro prejudicou a soja e o milho de verão nos principais municípios produtores da Bahia. Contudo, algumas propriedades receberam muito mais chuva do que outras, o que provocou grande variação de produtividade entre as fazendas. A soja apresentou boa recuperação com as chuvas em fevereiro, março e abril. Em São Desidério, a situação é melhor do que nos municípios mais ao norte, como Barreiras e Luís Eduardo Magalhães. A média de produtividade da soja na região deve ficar na faixa entre 47 e 49 sacas/ha, enquanto o milho deve render uma média entre 120 e 130 sacas/ha.

No MAPITO, as melhores produtividades foram obtidas no Tocantins, onde os problemas foram pontuais. No Maranhão, dois veranicos prejudicaram a produtividade, principalmente das variedades mais precoces. No Piauí, as projeções realizadas no final de janeiro apontavam para uma forte quebra de safra; porém, as lavouras de soja, notadamente, as plantadas em dezembro, apresentaram boa recuperação com as chuvas nas últimas semanas. A produtividade média no Tocantins deve ficar acima de 50 sacas/ha. A colheita no Maranhão chegou a 85% e a produtividade média está por volta de 47 sacas/ha. No Piauí, os municípios mais ao norte, como Uruçuí e Baixa Grande do Ribeiro, sofreram mais com a estiagem e a produtividade média deve fechar um pouco acima de 40 sacas/ha; nos municípios mais ao sul do estado a produtividade média pode alcançar 45 sacas/ha.

No Paraná, a produtividade média na maioria das mesorregiões deve ficar próxima de 55 sacas/ha. Apesar das precipitações abaixo da média histórica em grande parte do estado, os produtores conseguiram alcançar níveis de produtividade elevados. Nas regiões norte, noroeste e oeste do estado, as lavouras plantadas logo após o vazio sanitário sofreram com a estiagem e apresentaram baixa produtividade. Houveram também alguns problemas pontuais com excesso de chuva na colheita nas regiões de Londrina e Maringá.

As regiões Sul e Norte do Mato Grosso do Sul sofreram um pouco com a estiagem no início do ano, prejudicando principalmente as variedades de soja mais precoces. Na média, as quedas na produtividade variam 5 e 10%. No município de Dourados, a colheita foi finalizada e as estimativas apontam para uma produtividade de 46 sacas/ha, uma quebra de 12% com relação à estimativa inicial de 52 sacas/ha. Já a média de produtividade do estado deve fechar em 48 sacas/ha.

No Vale do Paranapanema em São Paulo, a soja foi prejudicada pelas três semanas de estiagem em janeiro e a média de produtividade das lavouras deve ficar por volta de 50 sacas/ha. Já na região de Itapeva, a produtividade média da soja pode superar 60 sacas/ha, muito em conta do elevado percentual de área irrigada por pivô.

No Noroeste do Rio Grande do Sul, o clima foi bastante favorável até o mês de março, porém, as chuvas se tornaram escassas, reduzindo a produtividade em muitos municípios. Ainda assim, a produtividade nessa safra deve superar a média histórica da região. No milho verão os problemas são pontuais e ocorreram nas lavouras mais tardias, que sofreram com a estiagem na fase de floração. A produtividade média do milho verão deve superar as 100 sacas/ha, número recorde no estado. Na região de fronteira no sul do estado, as chuvas cessaram ainda em fevereiro e a quebra na soja pode chegar a 30% em alguns municípios. Em Santa Catarina a colheita de soja está em sua reta final e a produtividade média pode alcançar 60 sacas/ha.

Perspectivas  para a Safra 2015/16

Há tempos uma safra não se inicia de forma tão “tensa” para os produtores rurais, fornecedores de insumos e instituições financeiras. Alguns motivos para isso são:

1) Aumento dos custos dos insumos em função da desvalorização cambial, o que encare os fertilizantes e defensivos que, em grande parte (cerca de 75%), são importados;

2) Reajuste nos preços dos combustíveis, com implicação do aumento dos custos operacionais e de frete dos insumos e escoamento da safra;

3) Atraso na comercialização dos insumos em regiões do Cerrado, que pode estar ocorrendo em função do atraso na liberação de recursos controlado de pré-custeio por parte das instituições financeiras;

4) Os estoques globais das principais commodities ainda está elevado (relação de estoque/uso no mundo está em 35,3% para a soja e em 19,3% para o milho);

5) Segundo os meteorologistas, estamos vivenciando o chamado período de Oscilação Decadal do Pacífico, que é caracterizado por verões secos no Centro-Sul do país, como ocorreu nos dois últimos anos e

6) Perspectiva de aumento de 2 p.p. na taxa de juros do crédito rural oficial, com diminuição do volume para aquisição de máquinas e equipamentos.

Nesse ambiente de maior risco, alguns contratos de arrendamento podem não ser renovados; adicionalmente, a abertura de novas áreas deve ser freada em regiões do Cerrado, onde o custo de abertura e a baixa produtividade das áreas de 1º ano de cultivo aumentam o endividamento e diminuem a liquidez do produtor rural.

Um movimento percebido pela Agrosecurity é que, com a maior seletividade do sistema financeiro no processo de concessão de crédito – em todos os setores da economia – os produtores rurais terão de recorrer com maior intensidade aos créditos disponibilizados pelos distribuidores de insumos e tradings. Dessa forma, as empresas precisam estar mais preparadas para realizar campanhas de vendas atreladas às vendas a prazo como forma de aumento do market share.

Para melhor exemplificar o maior ambiente de risco que permeia a Safra 2015/16, simularemos abaixo a rentabilidade da soja para produtores com 50% de área arrendada e sem armazém próprio em 4 importantes praças produtoras com três situações do câmbio para março/15: a) R$ 2,60/dólar; b) R$ 3,10/dólar e c) R$ 3,60/dólar. No primeiro cenário, observa-se rentabilidade negativa em Sorriso/MT e abaixo de 10% em Barreiras/BA e Rio Verde/GO, em função dos menores preços de venda da produção.

 

Figura 2 - Projeção de rentabilidade (lucro sobre custo) da soja em 3 cenários cambiais

Fonte: Agrometrika (www.agrometrika.com.br)

A desvalorização cambial e o aumento de valores dos combustíveis prejudicam mais as cadeias voltadas para o mercado interno, como arroz, feijão e hortifrútis, pois terão apenas o aumento do custo sem a contrapartida de aumento das receitas.

Crédito e Recebimento

O mercado segue em compasso de espera para verificar a performance de pagamentos das vendas diretas e via distribuidores e cooperativas. Os vencimentos em 30/04 e 31/05 são os mais importantes da Safra Verão, embora algumas empresas operem com vencimentos antecipados para fugir do rush de pagamentos de final de mês para eventualmente capturar um pouco mais de liquidez dos seus clientes.

No cômputo geral, dois aspectos devem auxiliar a melhorar a liquidez no campo, sobretudo nas culturas de soja e milho. A boa produtividade na maior parte das regiões e a alta do dólar estão favorecendo o aumento da receita das culturas de exportação. Mas existem algumas ressalvas em relação à culturas e regiões, como segue:

Regiões que sofreram quebra por dois anos consecutivos: As regiões que acumulam perdas apresentam um maior risco de falta de liquidez e atraso nas contas. Apesar da recuperação com as chuvas de fevereiro, regiões como o Sudoeste Goiano, Oeste Baiano, algumas áreas do Triângulo Mineiro e o Piauí - que contabilizou a maior perda entre todos, na casa dos 20% - apresentam problemas produtivos.

Soja e Milho: Os preços mais favoráveis (em R$) contribuirão para uma melhor receita, sobretudo no caso dos produtores do Sul, que venderam relativamente pouco com câmbio menos favorável de novembro e dezembro de 2014. O milho, por outro lado, vem desanimando os produtores, que estão enfrentando baixa demanda e boa oferta com a entrada da Safra Verão, deixando o mercado com altos estoques. Adicionalmente, a Safrinha vem bem, o que deve condenar os preços ao ciclo de baixa por todo o segundo semestre.

Algodão: uma grande dúvida incide sobre esses produtores que, apesar de não terem contas da cultura para pagar no vencimento de verão, amargam um preço ruim e um elevado endividamento em USD. O grau de alavancagem em USD desse perfil de produtor preocupa os credores, que torcem para que nenhum problema ocorra na produtividade. Uma colheita boa pode compensar, em parte, os preços ruins em USD da commodity e gerar receita suficiente para liquidar o custeio dolarizado. Como dinheiro não tem carimbo, problema no algodão pode passar para os compromissos de soja e milho.

Troca e Securitização

Uma eventual alta nos juros nos EUA, associada a uma safra normal no hemisfério norte, poderia acentuar o ciclo de baixa das commodities agrícolas que, a princípio, deve perdurar por pelo menos 18 meses, mas que poderá se estender por mais tempo, o que cria um novo ambiente de negócio. Os produtores e canais de distribuição tendem a valorizar mais as campanhas de fornecedores, oferecendo proteção de preços na forma de troca, opções e operações indexadas.

Do lado das empresas, as campanhas podem mitigar o risco de inadimplência e agregar valor na forma de serviços. Eventualmente, isso pode ser uma estratégia para proteger o preço dos seus produtos, sobretudo os de maior valor para o negócio, criando promoções com elevação do preço da commodity, com a proteção do valor de nota. Esse movimento é análogo ao que normalmente as montadoras adotam nos carros nos momentos de crise. Algumas empresas estão mais preparadas do que outras, que estão correndo atrás do atraso. A atual conjuntura demonstra que a gestão das operações com derivativos ainda é preconizada no sistema de distribuição.

Distribuidores no MT: a tendência de operações especulativas segue no nível de distribuição, embora restrita a um grupo menor de empresas após as perdas contabilizadas nas operações de milho em 2013; mas ainda ocorre algum volume com a soja. Esse problema deriva, em parte, do fato de alguns canais não possuírem crédito para pré-fixar todo o volume operado junto às tradings, sem muita alternativa, já que não têm caixa para operar na bolsa de futuros diretamente, acabam por assumir o risco da volatilidade sobre parte do ativo. Como elas têm passivos em USD junto aos fornecedores, acreditam estar em “hedging natural”; no entanto, se o valor em USD da soja cai, existe uma perda na operação. Esse risco vem sendo assumido sistematicamente nas últimas safras. De certa forma, esse risco poderia ser melhor gerido em parceria com os fornecedores.

Tendência de Crescimento do Vendor: Diante da redução das linhas de crédito corporativo padrão, é possível que as operações com recebíveis voltem a crescer, no intuito de diluir risco dos bancos nas operações clean, que devem se reduzir pelos próximos meses.

Operações Estruturadas: LCA, FIDC e CRA devem crescer no setor como forma dos bancos financiadores do agronegócio alavancarem recursos via LCA, enquanto as empresas comerciais devem buscar alternativas para geração de caixa via FIDC e CRA, além do vendor, já citado acima.

Fonte: Agrosecurity Consultoria e Gestão de Agro-Ativos

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