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Pespectivas para a Safra 2015/16

A menos de um mês para o início do plantio da safra 2015/16, a única coisa certa são os custos mais elevados com insumos, diesel e mão-de-obra. A Agrometrika estima que o custo de produção de grãos e fibras seja de 15 a 20% mais elevados em relação à safra anterior. Os preços das commodities estão depreciados no mercado internacional, entretanto, o dólar - no patamar mais elevado dos últimos 12 anos - mantém firme as cotações internas de produtos como soja, milho e algodão.

O Quadro a seguir traz uma projeção do Índice de Liquidez de produtores em diversas regiões do país. O Índice de Liquidez é calculado através da soma de todas as entradas de caixa dividido por todas as saídas de caixa projetadas do produtor rural, considerando as parcelas de dívidas com máquinas e equipamentos. Se o Índice de Liquidez for superior a 1, indica uma disponibilidade de caixa positiva; quando é menor do que 1, indica uma disponibilidade de caixa negativa. Abaixo estão alguns perfis de produtor que são compatíveis com a sua região de atuação:

Quadro 1 – Projeção do Índice de Liquidez de Produtores para a Safra 2015/16


Fonte: Agrometrika

O Índice de Liquidez talvez seja o indicador mais importante para a análise de crédito do produtor rural, pois indica o seu saldo de caixa ao final da safra. É um indicador fundamental para análise de risco de crédito e que é adotado na metodologia da Agrometrika. Quando esse indicador está abaixo de 1, pode ser interpretado pura e simplesmente como “não será possível pagar todos os credores” ou será necessário contratar dívida nova para pagar a dívida velha. Esse movimento é aceitável para um ano isolado, até mesmo pela própria característica do agronegócio de intercalar safras boas com safras ruins (quebra de safra, preços baixos etc.). Porém, quando essa prática passa a ser rotineira, torna-se insustentável e inviabiliza a atividade econômica.

Observamos no Quadro 1 que os dois produtores de Mato Grosso estão no momento com uma projeção de Índice de Liquidez Inferior a 1. Já o produtor da Bahia, apesar de apresentar o indicador um pouco acima de 1, enfrentou, nas últimas três safras, problemas de produtividade na soja e de qualidade no algodão. Com isso, muitos dos produtores do Oeste Baiano estão excessivamente endividados e sem margem para novos problemas na Safra 2016.

A questão do endividamento em dólar é fator comum entre os três perfis de produtores citados acima. Muitos dos que compartilham essa característica sofreram com a alta expressiva da moeda norte-americana desde o final de 2014, pois, não só viram sua dívida aumentar 50% em menos de um ano, como também presenciaram as constantes quedas nas cotações de soja e algodão nas Bolsas de Chicago e New York, respectivamente:  

Figura 1 – Cotação Soja (US$/sc 60 kg) x Taxa de Câmbio (R$/US$)

Fonte: CEPEA/ESALQ. Elaboração: Agrometrika

Figura 2 – Cotação Algodão (cents/lb) x Taxa de Câmbio (R$/US$)

Fonte: CEPEA/ESALQ. Elaboração: Agrometrika

Fica evidente nos gráficos acima que o preço das commodities apresentou relação inversa com a taxa de câmbio no período analisado. Deste modo, a situação que vivemos atualmente é extremamente complicada para o produtor que se financia em dólar, pois à medida que a moeda norte-americana se valoriza com relação ao real, a receita, em dólar, desse produtor cai, enquanto seu endividamento, na mesma moeda, se mantém estável.

Dando um exemplo prático: o produtor comprou insumos nos meses de abril e maio em dólar - quando o mesmo era cotado a R$ 3,05 - para pagamento em mar/16. Se no momento do pagamento, o dólar estiver a R$ 3,65, mesmo preço de hoje (25/08), o produtor irá desembolsar quase 20% a mais do que esperava no momento da compra.

Se considerarmos ainda que esse produtor possui um percentual grande de arrendamento, a conta simplesmente não fecha, conforme demonstrado no quadro abaixo:

Quadro 2 – Índice de Liquidez em Função do % de Arrendamento e % do Custeio em US$ do Produtor de Sapezal/MT (Quadro 1)


Fonte: Agrometrika

Dessa forma, é muito importante que os agentes da cadeia do agronegócio – fornecedores de insumos, tradings, indústrias e bancos – estejam atentos a esses movimentos macroeconômicos e setoriais. Pois quando há uma variação forte de uma variável tão importante quanto o câmbio, os efeitos sobre os produtores podem ser transmitidos para os balanços das instituições que os financiam. E num contexto de escassez de crédito, esse é um tipo de presente que ninguém quer receber.

Texto: Luiz Rafael Azevedo

Crédito mais curto e caro

Para quem trabalha no agronegócio, não é novidade que as indústrias e distribuidores de insumos atuam como verdadeiros “bancos”, já que são agentes concedentes de crédito ao seu cliente final, seja ele o distribuidor (no caso da indústria) ou o produtor rural (no caso do distribuidor e também da indústria no caso das vendas diretas).

No caso dos distribuidores, é comum verificar nos Balanços Patrimoniais um nível de duplicatas a receber acima de 70% das receitas anuais e um Patrimônio Líquido abaixo de 10% das receitas. Isso com uma margem de lucro líquido sobre as vendas abaixo de 5%. Esses números revelam a fragilidade patrimonial e financeira desse importante agente da cadeia do agronegócio brasileiro, pois uma pequena inadimplência pode “negativar” a rentabilidade anual e “corroer” o patrimônio da empresa.

Até o final de 2014, havia abundância de liquidez para os diversos segmentos da economia, como construção civil, bens de consumo e agronegócio. No entanto, os indicadores macroeconômicos frágeis do Brasil, em termos de dívida pública, PIB, balança comercial e inflação, obrigaram o Governo Federal a adotar medidas expressivas para o ajuste fiscal, o que provocou uma queda da liquidez e encarecimento do crédito dos bancos públicos e privados.

Os dados abaixo do Banco Central, elaborados pela Agrosecurity, demonstram que no primeiro semestre de 2015, houve queda de 4,4% no volume de crédito total concedido para Pessoas Jurídicas no Brasil, abaixo inclusive do que foi concedido em 2013. Por outro lado, houve aumento de 1,7 pontos percentuais na taxa de juros, cujo valor está, em média, em 18,3% a.a. nas operações de crédito para Pessoa Jurídica, o mais alto do triênio 2012-2014.

Figura 3 - Evolução de Indicadores de crédito de Pessoa Jurídica no 1º Semestre

Fonte: Banco Central. Elaboração: Agrosecurity.

Nas operações de crédito rural ao produtor, observa-se o mesmo movimento similar. Mesmo o governo tendo anunciado um volume de crédito mais elevado através do Plano Safra 2015/16 (disponibilidade de R$ 187,7 bilhões, o que significa aumento de 20,2% em relação à Safra 2014/15), na prática está ocorrendo o inverso. Segundo revelam os próprios dados do Banco Central, conforme elaborado pela Agrosecurity e exposto abaixo, o volume de crédito rural com recursos direcionados concedido aos produtores rurais no 1º semestre de 2015 foi de R$ 24,9 bilhões, o que representa queda de 25,7% em relação ao mesmo período do ano anterior e queda de 6,7% em relação ao volume concedido em 2013.

Figura 4 - Evolução de concessão de crédito com recursos direcionados para produtores rurais no 1º Semestre


Fonte: Banco Central. Elaboração: Agrosecurity.

Percebe-se então que o crédito está mais curto e caro. Não é difícil encontrar um gestor financeiro relatando que o gerente do seu banco não está liberando crédito de capital de giro como fazia nos anos anteriores. Para aqueles que conseguem alguma coisa, as taxas estão mais caras. Além disso, existem muitos relatos, inclusive veiculados na imprensa, sobre as chamadas “vendas casadas” dos bancos nas operações de crédito rural aos produtores. Assim, no fim do dia, os juros subsidiados ficam quase iguais aos juros livres praticados no mercado e de pouco vale o esforço do governo para subsidiar essas linhas.

Nesse cenário preocupante de escassez de crédito, as empresas precisam aperfeiçoar a sua gestão a fim de reduzir custos unitários e melhorar as margens. Isso pode ser feito no curto prazo, mas os efeitos são sentidos apenas no médio e longo prazos. Recentemente, ouvimos na visita a uma empresa a seguinte frase: “Nos últimos anos, os esforços das empresas estavam focados 80% em vendas e 20% em gestão; agora essas proporções se inverteram e estamos focados 80% em gestão e 20% em vendas”.

Essa frase reflete bem o dia-a-dia das empresas hoje e esse é o lado positivo dessa crise, na medida em que induz as empresas e os seus colaboradores para que aperfeiçoem as suas habilidades e competências. No fim do dia, todos tendem a ganhar, com o aumento da produtividade, redução de custos unitários e melhoria da renda.

Para as empresas do agronegócio, a gestão do risco de crédito é fundamental nesse momento, já que as empresas (distribuidores e indústrias) trabalham como “bancos”, conforme já citado. Por isso, uma elevação substancial da inadimplência pode ser fatal para aqueles que possuem margem reduzida, especialmente porque a obtenção de linhas de capital de giro está mais difícil junto ao sistema financeiro para fazer a cobertura do fluxo de caixa.

A atual crise poderá trazer transformações na matriz de financiamento da agricultura, com maior participação das tradings, novamente como financiadores importantes nas cadeias dos grãos. Também deve haver maior aproximação do mercado de capitais através de operações estruturadas, tais como FIDC e CRA. Para isso basta que a CVM faça os ajustes necessários em suas normativas para permitir um melhor enquadramento de recebíveis agrícolas nessas modalidades.

Não podemos nos iludir acreditando que o agronegócio possa crescer de forma consistente sem um mercado bem organizado nesse aspecto e sem os mitigadores de risco, como o mercado de seguro da produção e da renda. Não podemos ficar apenas na dependência de recursos públicos para financiar a atividade rural no Brasil.

Texto: Felipe Prince Silva

Fonte: http://www.agrometrika.com.br/boletins/boletim-agrometrika-setembro-15/

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